Celular depois da escola, videogame no fim da tarde, vídeos enquanto a família organiza a rotina e mais alguns minutos de rede social antes de dormir. Quando se percebe, as telas estão presentes em boa parte do dia da criança ou do adolescente.
Isso não significa que toda tecnologia seja prejudicial. As telas também podem fazer parte dos estudos, do entretenimento, da comunicação e até da socialização. A questão começa a mudar quando o uso passa a ocupar o espaço de atividades importantes para o desenvolvimento, como dormir, brincar, estudar, conviver com outras pessoas e movimentar o corpo.
Por isso, ao falar sobre uso excessivo de telas em crianças e adolescentes, não devemos observar apenas quantas horas o jovem permanece conectado. Também precisamos considerar o tipo de conteúdo, o contexto, a idade e, principalmente, o impacto daquele hábito na vida cotidiana. A Academia Americana de Pediatria reforça atualmente essa visão mais ampla, considerando não apenas o tempo de exposição, mas aquilo que a mídia digital está substituindo na rotina da criança.
Em resumo: o uso de telas merece atenção quando começa a interferir de maneira persistente no sono, nos estudos, nas atividades físicas, na convivência familiar, nas relações sociais ou na regulação emocional da criança ou do adolescente. Irritabilidade intensa ao interromper o aparelho, perda de interesse por outras atividades e dificuldade para reduzir o uso também podem ser sinais importantes.
Nem todo tempo de tela é igual
Assistir a uma aula pelo computador não produz necessariamente o mesmo contexto que passar horas alternando entre vídeos curtos, redes sociais e jogos.
Da mesma forma, uma criança que assiste a um filme acompanhada pelos pais está vivendo uma experiência diferente daquela que permanece várias horas sozinha no celular, especialmente se o aparelho é utilizado sem supervisão ou em horários que prejudicam outras necessidades.
A Sociedade Brasileira de Pediatria atualizou em 2024 suas orientações sobre crianças e adolescentes na era digital, reforçando a importância da participação dos responsáveis, da supervisão dos conteúdos acessados e do equilíbrio entre tecnologia e outras experiências da vida cotidiana.
Portanto, o relógio é importante, mas ele não conta toda a história.
Ao avaliar a relação de uma criança ou adolescente com as telas, algumas perguntas costumam ser mais úteis:
- O uso está prejudicando o sono?
- A criança deixou de brincar ou realizar atividades que antes gostava?
- O adolescente está se afastando progressivamente da família ou dos amigos?
- Existe dificuldade importante para interromper o aparelho?
- O rendimento ou a organização escolar mudou?
- A tela passou a ser praticamente a única maneira de aliviar tédio, frustração, ansiedade ou irritação?
Quanto mais áreas da vida começam a ser afetadas, maior a necessidade de observar esse comportamento com cuidado.
Quais sinais podem indicar que as telas estão ocupando espaço demais?
Nem sempre existe um momento específico em que os pais percebem que o uso se tornou excessivo.
Muitas vezes, as mudanças aparecem aos poucos.
Uma criança começa a resistir cada vez mais na hora de guardar o tablet. Um adolescente passa a dormir mais tarde porque permanece conectado. As refeições ficam acompanhadas pelo celular. Atividades ao ar livre diminuem. Conversas familiares se tornam mais curtas.
Isoladamente, nenhuma dessas situações confirma um transtorno ou uma dependência tecnológica. Porém, quando vários desses comportamentos se tornam frequentes, eles merecem atenção.
Entre os sinais que podem ser observados estão:
- dificuldade persistente para desligar ou guardar os dispositivos;
- irritação intensa diante da imposição de limites;
- perda de interesse por brincadeiras, esportes ou hobbies;
- redução da convivência presencial com familiares e amigos;
- uso escondido ou tentativa frequente de ultrapassar os limites combinados;
- queda na organização ou no desempenho escolar;
- dificuldade de concentração;
- uso durante praticamente todas as refeições;
- necessidade crescente de permanecer conectado;
- sono cada vez mais tardio ou insuficiente.
As evidências atuais também relacionam maior exposição digital a alterações no sono e, dependendo do padrão de uso e do contexto, a dificuldades relacionadas à atenção, aprendizagem e regulação emocional. Esses achados representam associações e não significam que as telas sejam, sozinhas, a causa de qualquer sintoma.
O sono costuma ser uma das primeiras áreas afetadas
O adolescente diz que vai assistir a “só mais um vídeo”.
Depois responde algumas mensagens.
Em seguida, abre outra rede social.
Quando percebe, já passou muito do horário de dormir.
Esse padrão pode parecer inofensivo em algumas noites, mas se torna mais relevante quando passa a fazer parte da rotina.
Dormir menos ou ter horários muito irregulares pode repercutir no humor, na capacidade de atenção, na memória e no funcionamento durante o dia. Além disso, conteúdos estimulantes e a presença do próprio dispositivo no quarto podem dificultar a organização da rotina de sono.
A Academia Americana de Pediatria destaca que as tecnologias digitais podem interferir tanto na duração quanto no início e na qualidade do sono de crianças e adolescentes.
Por isso, quando uma família percebe dificuldade recorrente para acordar, sonolência durante o dia, piora importante do humor ou redução do rendimento escolar, vale observar também o que acontece com as telas durante a noite.
Irritação ao tirar o celular significa dependência?
Não necessariamente.
Crianças e adolescentes podem ficar frustrados quando uma atividade prazerosa é interrompida. Isso também acontece quando precisam parar uma brincadeira, deixar um jogo ou ir embora de um lugar de que gostam.
O que merece maior atenção é a intensidade, a frequência e o contexto da reação.
Uma situação é reclamar porque chegou a hora de desligar o videogame. Outra é apresentar conflitos frequentes, dificuldade extrema de respeitar qualquer limite e abandono progressivo de outras atividades para permanecer conectado.
Também é importante compreender o que aquela tela representa.
Em alguns casos, ela pode estar funcionando como uma forma de aliviar ansiedade, solidão, tédio ou outras emoções difíceis. Portanto, apenas retirar o aparelho, sem compreender o restante da situação, nem sempre resolve o problema.
É preciso olhar para a criança como um todo.
Como estabelecer limites sem transformar a casa em uma guerra?
Regras funcionam melhor quando são claras, previsíveis e coerentes.
Se o celular pode ser utilizado sem limite em um dia e gera uma proibição repentina no dia seguinte, a criança tem mais dificuldade para compreender o que se espera dela.
Por isso, alguns ajustes podem ajudar:
- combinar previamente os momentos destinados às telas;
- preservar refeições e momentos familiares sem dispositivos;
- estabelecer uma rotina de desaceleração antes de dormir;
- oferecer atividades fora das telas que façam sentido para aquela criança;
- conhecer os jogos, aplicativos e conteúdos utilizados;
- conversar sobre segurança e comportamento no ambiente digital;
- evitar utilizar o celular como única estratégia para lidar com tédio ou emoções difíceis;
- rever também o exemplo dos adultos da casa.
A orientação atual da Academia Americana de Pediatria utiliza inclusive o conceito de “crowding out”, ou seja, observar aquilo que o uso de mídia está expulsando da rotina: sono, atividade física, estudo, convivência e experiências presenciais.
O objetivo não precisa ser construir uma casa sem tecnologia, mas desenvolver uma relação mais equilibrada com ela.
Quando procurar avaliação profissional?
Uma avaliação pode ser considerada quando o padrão de uso começa a provocar prejuízos persistentes ou quando os responsáveis percebem mudanças relevantes no funcionamento da criança ou do adolescente.
Isso pode incluir alterações importantes:
- no sono;
- no desempenho ou na rotina escolar;
- na convivência familiar;
- na socialização;
- no interesse por outras atividades;
- no humor;
- na capacidade de lidar com frustrações;
- na organização da rotina.
Outro ponto importante é observar se existem outros sintomas acontecendo ao mesmo tempo.
Ansiedade, dificuldades de atenção, alterações de humor, problemas de sono, conflitos escolares ou dificuldades de regulação emocional podem coexistir com o uso excessivo de tecnologia.
Nesse cenário, tentar explicar tudo apenas como “vício no celular” pode simplificar demais uma situação mais complexa.
Quando essas mudanças começam a interferir no desenvolvimento, na escola ou na convivência familiar, uma avaliação com Psiquiatra Infantil em Salvador pode ajudar a compreender melhor o contexto.
Como funciona a avaliação?
Durante uma avaliação de uma criança ou adolescente, não observo apenas quantas horas ela passa diante de uma tela.
Procuro compreender como está a rotina, quando o comportamento começou, que função aquele dispositivo ocupa no dia a dia e o que mudou na vida da criança.
Também podem ser considerados fatores como:
- rotina escolar;
- sono;
- comportamento;
- relações familiares;
- amizades e socialização;
- atividades físicas e momentos de lazer;
- desenvolvimento emocional;
- histórico médico;
- presença de outros sintomas.
A participação da família é especialmente importante porque crianças e adolescentes estão inseridos em contextos que influenciam diretamente seus hábitos.
Quando necessário, informações relacionadas ao ambiente escolar e outras avaliações complementares também podem contribuir para a compreensão do quadro.
A partir disso, é possível discutir orientações e possibilidades de cuidado adequadas às necessidades de cada família, sem partir da ideia de que existe uma única regra que funcione para todos.
A Dra. Mariana Fontes realiza atendimento psiquiátrico de crianças e adolescentes de 5 a 16 anos exclusivamente de forma presencial em Salvador.
A tecnologia faz parte da infância atual — o equilíbrio também precisa fazer
O objetivo não precisa ser tratar celular, televisão, videogame ou internet como inimigos.
Essas ferramentas fazem parte da realidade das crianças e dos adolescentes e podem oferecer aprendizado, diversão, criatividade e conexão social.
O ponto de atenção surge quando a vida fora da tela começa a perder espaço.
Se você percebe mudanças persistentes no sono, comportamento, estudos ou convivência do seu filho e gostaria de compreender melhor o que está acontecendo, uma avaliação individualizada pode ajudar a organizar os próximos passos.
Para conhecer o atendimento da Dra. Mariana Fontes, acesse a página de Psiquiatria Infantil em Salvador ou entre em contato para agendar uma consulta presencial.
Perguntas frequentes sobre uso de telas
Quantas horas de tela são consideradas excessivas para uma criança?
Não existe um único número capaz de definir sozinho se o uso está saudável ou prejudicial em todas as idades e contextos. Além do tempo, é importante observar o conteúdo acessado, a idade da criança e se as telas estão interferindo no sono, nos estudos, nas atividades físicas, na convivência e em outras experiências importantes.
Usar muito o celular significa que meu filho tem dependência tecnológica?
Não necessariamente. Uso frequente e dependência não são sinônimos. É necessário avaliar o grau de controle sobre o comportamento, a presença de prejuízos e o contexto emocional e familiar. Sintomas isolados não confirmam um diagnóstico.
Tirar o celular de uma vez é a melhor solução?
Nem sempre. Mudanças bruscas podem aumentar conflitos e não abordam necessariamente o motivo pelo qual a criança ou adolescente está utilizando tanto o dispositivo. Em muitos casos, regras consistentes, mudanças progressivas na rotina e participação dos responsáveis são estratégias mais úteis.
O uso de telas pode prejudicar o sono?
Pode estar associado a alterações na duração, no horário e na qualidade do sono, especialmente quando os dispositivos são utilizados até tarde ou permanecem disponíveis no quarto. Por isso, mudanças persistentes no sono devem fazer parte da avaliação da rotina digital.
Quando o uso de telas merece avaliação com psiquiatra infantil?
Quando existem prejuízos persistentes no sono, na escola, na convivência, na socialização ou na regulação emocional, ou quando outros sintomas aparecem junto com o uso excessivo. A avaliação ajuda a entender se existem outros fatores contribuindo para o comportamento e quais orientações podem ser adequadas para aquela criança e família.
A Dra. Mariana Fontes atende crianças e adolescentes online?
Não. O atendimento de crianças e adolescentes de 5 a 16 anos é realizado exclusivamente de forma presencial em Salvador. Para adultos, existem outras modalidades de atendimento disponíveis no consultório.





























